INVERSÃO DA PROBABILIDADE DE RECAÍDA EM RELAÇÃO AO TEMPO ABSTÊMIO

Convido o leitor a fazer uma aposta. Imagine dois abstêmios. O primeiro consiste num abstêmio com pouquíssimo tempo de abstinência (30 dias, 60 dias ou 90 dias, por exemplo). O segundo abstêmio, entretanto, possui grande tempo de abstinência (20 anos, 25 anos ou 30 anos, por exemplo). Nesse caso, especificamente, ambos os abstêmios possuem o mesmo passado de drogadição (20 anos) e todas as demais variáveis são equivalentes (exposição, riscos, profissão, afetividade, drogas de eleição etc). Se você fosse apostar, pergunto: qual deles possui a maior chance de recair (reintoxicação física)? Existe uma diferença na probabilidade de recaída conforme o tempo de abstinência? Vamos analisar isso.

Sabemos que o início da abstinência, para àqueles que desenvolveram a adicção, não é uma tarefa fácil. São inúmeros os fatores que contribuem para dificultar, na fase inicial, a manutenção da abstinência, por exemplo: problemas gerados pela adicção (prisão, processos penais), conflitos afetivos, questões financeiras, comorbidades (desintoxicação, TDAH, TOC, depressão), desenlaces matrimoniais ou pensamentos tomados pelo triângulo da auto-obsessão (culpa, raiva e medo). Tudo isso, e muito mais, dificultam sobremaneira o desencadeamento inicial da abstinência[1]. 

A boa notícia é que a abstinência consiste num processo factível e possível de ser percorrido. Assim, aqueles que superaram a fase inicial mais tumultuada poderão (deverão) continuar a desenvolver seus processos abstêmios. Disso tudo, surgirão abstêmios com muitos anos de abstinência, por exemplo: 20 anos, 30 anos ou mais (recentemente conheci uma pessoa com 42 anos de abstinência). 

A questão analisada nesse estudo refere-se à PROBABILIDADE DE RECAÍDA EM RELAÇÃO AO TEMPO ABSTÊMIO, ou seja, com o passar do tempo de abstinência a probabilidade de recair (reintoxicação física) é menor, igual ou maior? Quando comparamos dois abstêmios, um mais novato e outro mais experiente, podemos afirmar que ambos possuem a mesma probabilidade de recair? Acompanhe o raciocínio. Podemos apresentar três soluções, mas acredito que apenas uma delas parece ser a mais coerente. Vejamos.

TESE 01: a cada ano que a pessoa permanecer em abstinência a probabilidade de ela recair aumenta. Em outras palavras, as pessoas com MENOS tempo de abstinência terão MENOS chances de recaírem. Apenas no que se refere à denominação, gosto de afirmar que essa é a TESE DE 10/90: com 10 anos de abstinência a pessoa tem 90% de chance de recair ou, pelo contrário, com 01 ano de abstinência a pessoa tem 90% de chance de NÃO recair. Isso me parece ser totalmente INCOERENTE.

TESE 02: a cada ano que a pessoa permanecer em abstinência a probabilidade de ela recair não se altera, ou seja, a probabilidade de recair é sempre a mesma independentemente do tempo de abstinência que a pessoa tiver. Apenas no que se refere à denominação, gosto de afirmar que essa é a TESE DE 50/50: com 01, 05, 10 ou 30 anos de abstinência a pessoa tem 50% de chance de recair. Isso condensa a probabilidade de recair ao binômio: RECAIR OU NÃO RECAIR. Para essa tese o abstêmio sempre pode “recair” ou “não recair” e isso ele decide no seu dia a dia. Existem muitas pessoas que consideram essa probabilidade como sendo a mais factível, embora eu discorde por acreditar que isso representa uma meia verdade. O abstêmio, diariamente, pode escolher “recair” ou “não recair”, mas ao longo dos vários anos de abstinência a escolha “recair” perde sua intensidade de modo que a probabilidade da reintoxicação física diminui acentuadamente.

TESE 03: a cada ano que a pessoa permanecer em abstinência a probabilidade de ela recair diminui, ou seja, a probabilidade de recair é inversamente proporcional ao tempo de abstinência do sujeito. Apenas no que se refere à denominação, gosto de afirmar que essa é a TESE DE 90/10: com 10 anos de abstinência a pessoa tem 10% de chance de recair ou, pelo contrário, com 01 ano de abstinência a pessoa tem 90% de chance de recair. Essa me parece, abstemiologicamente, a solução mais viável para o problema já que quanto MAIOR for o tempo de abstinência MENOR será a possibilidade de a pessoa retornar ao universo da adicção[2].

Mais uma vez, sendo repetitivo, informo que os números acima são meramente ilustrativos de modo que não existem necessariamente as probabilidades indicadas. Aliás, as probabilidades exatas só podem ser aferidas com estudos técnicos mais profundos.

O que vale nesse estudo que ora se apresenta é o raciocínio de que quanto MAIOR for o tempo abstêmio MENOR será a probabilidade de o abstêmio retornar ao processo de adicção. Isso, inclusive, encontra respaldo na TEORIA DO LASTRO ABSTÊMIO[3], TEORIA DA DISSONÂNCIA PATENTE[4], TEORIA DO DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO (ponto “DETOX”)[5] e CURVA DE GAUSS NO MODELO ABSTEMIOLÓGICO[6].

E como fica a máxima “SÓ POR HOJE”? Continua existindo em sua plenitude. Ela se refere à obtenção da abstinência no dia de hoje e não sofre (nem deveria sofrer) nenhuma alteração conceitual[7]. Ademais, essa máxima é, simultaneamente, PRINCÍPIO ABSTÊMIO, TÉCNICA PARA MANTER A ABSTINÊNCIA e EFEITO GERADO PELA PRÓPRIA ABSTINÊNCIA. Assim, não podemos confundir a abstinência diária com o longo período abstêmio capaz de reduzir a probabilidade do processo de recaída.

Essa teoria da inversão da probabilidade de recaída em relação ao tempo abstêmio explica porque é muito mais comum que vejamos pessoas com menor tempo abstêmio recaindo e, de outro lado, pessoas com maior tempo de abstinência mantendo-se abstêmios.  É óbvio que abstêmios com muitos anos de abstinência também recaem, mas, proporcionalmente, os índices de recaídas dessas pessoas são muito inferiores aos índices de abstêmios mais inexperientes.

Concluindo, aparentemente, quanto mais elástico for o período de abstinência mais difícil e remota se torna a possibilidade do retorno ao processo de adicção[8]. Esse fenômeno é denominado como TEORIA DA INVERSÃO DA PROBABILIDADE DE RECAÍDA EM RELAÇÃO AO TEMPO ABSTÊMIO.

Bons estudos!

Escritor: Péricles Ziemmermann

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REFERÊNCIAS

[1] O abstêmio que está passando por essa fase inicial (desintoxicação) é denominado de abstêmio mínimo ou abstêmio ínfimo.

[2] Sugerimos, humildemente, a leitura do texto: ABSTEMIOMETRIA: CURVA DE GAUSS NO MODELO ABSTEMIOLÓGICO

[3] Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto: TEMAS AVANÇADOS DE ABSTEMIOLOGIA: TEORIA DO LASTRO ABSTÊMIO

[4] Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto: TODA RECAÍDA É IGUAL?

[5] Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto: TEORIA DO DESLOCAMENTO VETORIAL DA DESINTOXICAÇÃO

[6] Vide nota nº 02.

[7] Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto: CARACTERÍSTICAS DO “SÓ POR HOJE”

[8] Veja a imagem logo abaixo:

Sugerimos, humildemente, que seja feita a leitura do texto: DIFERENÇA ENTRE PERMANENTE E IMINENTE POSSIBILIDADE DE RECAÍDA

ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824565-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2020. ISBN 978-85-924432-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. ABSTEMIOPATIAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2021. ISBN 978-85-824583-6-5

Para mais informações: LIVROS SOBRE CODEPENDÊNCIA

publicado
Categorizado como NOVIDADES

Por Pericles Ziemmermann

Autor dos livros "PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS", "TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS", "ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS" e "ABSTEMIOPATIAS". Advogado e especialista em diversas áreas. Pesquisador de temas abstemiológicos. Criador do maior site do Brasil sobre estudos da Vida Abstêmia: Abstemiologia.