O PROBLEMA DO AMADORISMO NO TRATAMENTO DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA

Bricolagem abstemiológica: o problema do amadorismo no tratamento da dependência química e do alcoolismo

“O hábito é o grande guia da vida humana” (DAVID HUME, 1711-1776).

O termo BRICOLAGEM tem origem na palavra francesa “bricolage” e serve para designar serviços, produtos ou bens produzidos de forma amadora[1]. O termo surgiu na França e deve-se ao fato de que durante os períodos de guerra a indústria estava empregada diretamente na produção de material bélico deixando de ofertar bens, serviços e produtos à população. Isso fez com que o povo precisasse produzir de forma artesanal sua própria roupa, alguns alimentos e utensílios domésticos. No Brasil, em alguns casos, as máximas “gambiarra”, “geringonça”, “jeitinho brasileiro”, “quem não tem cão caça com gato” ou “em terra de cego quem tem olho é rei” podem se referir a atos de bricolagem, sobretudo quando essas expressões estiverem designando serviços, bens ou produtos “caseiros”, amadores ou sem produção industrial (não industrializados).

Feitas essas considerações, pergunto: no que consiste a bricolagem abstemiológica? Existe amadorismo no tratamento da dependência química ou alcoólica? Veremos isso neste artigo.

O processo de abstinência, via de regra, exige que sejam obtidas muitas informações. Penso que a adicção se desenvolve por falta de informação técnica, em contrapartida a abstinência precisa de conhecimento para se sedimentar. Por isso, é comum que tantos abstêmios digam que não é possível interromper o processo de adicção sem ajuda. Concordo plenamente e, pelo menos, do ponto de vista empírico essa premissa parece ser verdadeira. Porém, sabemos que, em casos raros, subsistem abstêmios que interrompem o processo de adicção sem ajuda de terceiros. Cito, como exemplo, os fenômenos abstêmios atípicos especificamente nos casos do abstêmio superman, abstêmio por trauma (próprio ou de terceiro), abstêmio one step e, algumas vezes, do abstêmio never relapse[2]. Todavia, como dito antes, isso é exceção.


Seguindo o mesmo raciocínio, no que se refere à APLICAÇÃO DAS TÉCNICAS ABSTEMIOLÓGICAS, existem alguns mecanismos que nos indicam a necessidade de pessoas mais experientes para guiar o abstêmio no início de sua jornada. Por exemplo, a técnica do apadrinhamento sinaliza a existência de uma pessoa mais experiente que possa auxiliar o abstêmio mais novato durante seu percurso de abstinência. No mesmo sentido, mutatis mutandis, existe a técnica da terapia individual (assistente social, psicólogo, psiquiatra ou terapeuta), exemplarismo, comparecimento a reuniões de grupos anônimos e a famosa técnica do “evite” e do “procure”.

Assim, no que se refere ao processo de abstinência e na aplicação adequada de técnicas abstemiológicas, ao que tudo indica, NÃO há espaço para BRICOLAGEM ABSTEMIOLÓGICA. Dizendo o mesmo, mas de outra forma, o amadorismo na tentativa de iniciar, manter e evoluir através do processo de abstinência pode gerar uma enorme confusão sobrecarregando as pessoas interessadas com informações supérfluas ou, em muitos casos, abrindo portas para o charlatanismo e o mercantilismo da adicção[3].

A abstinência obtida por pessoas que desenvolveram o processo de adicção é um evento raro e, justamente devido a essa raridade, não é levada em consideração nos estudos científicos ou, dizendo mesmo com outras palavras, NÃO é considerada relevante cientificamente. Inclusive, a própria ciência, ao excluir os estudos sobre o processo de abstinência ou relegá-los ao segundo plano, cria um ambiente apto ao desenvolvimento de BRICOLAGEM ABSTEMIOLÓGICA.

Não são poucos os casos nos quais ocorrem, numa tentativa desesperada de tentar ajudar a pessoa adicta a iniciar seu processo de abstinência, mecanismos como “amarrar o filho para que ele não saia de casa” (literalmente) ou tentativa de tratamento sub-reptício[4]. Isso reflete o desespero dos familiares na tentativa de ajudar seu ente querido adicto. Para piorar, alguns locais que supostamente deveriam ser eminentemente técnicos e servir como fontes de informações abstemiológicas, sabendo da dificuldade e apreensão que aflige os familiares no primeiro internamento de seu ente querido aproveitam-se desse momento para auferir rendimentos e lucros. Apenas para fins de registro, ainda existe o caso dos locais que não possuem nenhuma condição técnica sendo, portanto, incapazes (incompetentes) de fornecer informações sobre a vida abstêmia. Tudo isso representa, de certa forma, um viés que denota a existência de BRICOLAGEM ABSTEMIOLÓGICA.

Minha intenção, o que quero deixar claro, é sinalizar que para a pessoa iniciar, manter e evoluir no seu processo de abstinência precisará, inexoravelmente, de informações técnicas. Desse modo, no processo de abstinência não há possibilidade de amadorismo, fórmulas “caseiras” ou, em termos técnicos, BRICOLAGEM ABSTEMIOLÓGICA. Por isso, recomendo sempre que a interrupção abrupta do consumo de drogas/álcool seja avaliada por profissionais competentes, tais como médicos, psicólogos e assistentes sociais.

Nossa página tem âmbito nacional e pessoas que residem em Municípios menores costumam entrar em contato pedindo orientações sobre o processo de abstinência. Ocorre que, alguns Municípios são tão pequenos e isolados que não possuem médicos, psicólogos ou profissionais capazes de lidar com questões que envolvam a dependência química ou, muito menos, a abstemiologia. Nesses casos, existe uma DICA que pode ser muito útil a todos os familiares que buscam informações técnicas: procure o grupo anônimo de sua Cidade ou da Cidade mais próxima. Existem inúmeros grupos anônimos (por exemplo, A.A., N.A., Amor-Exigente) que podem servir como fonte de informações extremamente relevantes. Por exemplo, você não conhece nenhum médico na sua Cidade que trate de dependentes químicos, porém os membros dos grupos anônimos os conhecem e podem lhe indicar. 

Se na sua Cidade não houver nenhum grupo anônimo, nem médicos ou psicólogos (essa situação é muito comum no nosso país, principalmente nos Municípios do interior da região Norte e Nordeste) você tem duas opções: a primeira é procurar um grupo anônimo na Cidade mais próxima, a segunda é procurar ajuda na Igreja ou qualquer estabelecimento confessional. Normalmente, quando a pessoa resolve frequentar um grupo anônimo na Cidade vizinha ela acaba (re)conhecendo diversas pessoas da sua própria Cidade que frequentam o mesmo grupo. Em outros casos, você sempre pode contar com o sistema ideológico religioso, ou seja, a Igreja ou qualquer outro centro religioso da sua Cidade também pode lhe dar valiosas orientações.

Enfim, todas essas orientações e dicas são para esclarecer centenas de dúvidas que são postadas na nossa caixa de mensagens. Em qualquer um dos caminhos aqui indicados você poderá obter orientação para escapar da BRICOLAGEM ABSTEMIOLÓGICA. Cuidado: o amadorismo na condução do processo de abstinência (bricolagem) pode criar um grave problema e fazer com que o “remédio” (abstinência) seja mais custoso que a própria “doença” (adicção).

Bons estudos!

Escritor: Péricles Ziemmermann

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REFERÊNCIAS

[1] Tal conceito também foi incorporado pelo povo americano (EUA) através da expressão “do it yourself” (DIY) que em tradução livre significa “faça você mesmo”. Na política comercial esse conceito foi empregado, por exemplo, para a criação dos manuais de montagem que vêm, até hoje, junto com alguns produtos. Isso faz com que o comprador seja responsável pela montagem e facilita o processo de distribuição e venda dos produtos.

[2] Sugerimos, humildemente, a leitura do texto: FENÔMENOS ABSTÊMIOS ATÍPICOS

[3] Sugerimos, humildemente, a leitura do texto: CHARLATANISMO OU MERCANTILISMO DA ADICÇÃO

[4] Sugerimos, humildemente, a leitura do seguinte texto: INEFICÁCIA DO TRATAMENTO SUB-REPTÍCIO

ZIEMMERMANN, Péricles. PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2018. ISBN 978-85-824565-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2019. ISBN 978-85-824566-2-0

ZIEMMERMANN, Péricles. ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2020. ISBN 978-85-924432-3-8

ZIEMMERMANN, Péricles. ABSTEMIOPATIAS. Porto Alegre/RS: Editora Simplíssimo, 2021. ISBN 978-85-824583-6-5

Para saber mais: EBOOKS GRATUITOS

publicado
Categorizado como NOVIDADES

Por Pericles Ziemmermann

Autor dos livros "PRINCÍPIOS ABSTEMIOLÓGICOS", "TEORIAS ABSTEMIOLÓGICAS", "ITINERÁRIOS ABSTEMIOLÓGICOS" e "ABSTEMIOPATIAS". Advogado e especialista em diversas áreas. Pesquisador de temas abstemiológicos. Criador do maior site do Brasil sobre estudos da Vida Abstêmia: Abstemiologia.